quinta-feira, 28 de julho de 2011

O RATO ESCONDIDO, COM O RABO DE FORA, ESTÁ MAIS ESCONDIDO QUE O RABO ESCONDIDO COM O RATO DE FORA

Os Estados Unidos da América sempre souberam esconder o rato, mesmo deixando o rabo de fora. Considerados democracia-modelo, escondiam a pobreza de milhões de seus cidadãos, excluídos de assistência médica e de outros direitos típicos de uma verdadeira democracia. Ou democracia é só participar das eleições?

Como esconder o rabo do rato diante da crise de 2008, da qual ainda não saíram? O tamanho do rabo é o tamanho do dinheiro público usado para salvar empresas privadas, incluindo grandes montadoras e instituições financeiras. Haja rabo! E os excluídos pagaram a conta da maior economia do mundo, num processo chamado socialização das perdas.

Mas, com a economia em crise, uma parte maior do rato está aparecendo, além do rabo. O governo aumentou os gastos com alguma proteção social aos mais pobres e os mais ricos estão tendo um verdadeiro chilique. O rombo no caixa exige mudanças, e o governo incluiu a proposta de aumento dos impostos sobre as grandes fortunas e as grandes corporações, provocando novo chilique nas classes representadas pelo Partido Republicano. Este, aliás, exigiu que o Estado cortasse os gastos com os mais pobres, com os ainda excluídos. O corpo do rato surgiu quase inteiro; só não apareceu sua cara orelhuda.

Em 2017,  mudou a cara do rato, mas nada de novo no rugido do leão umbigocêntrico. É que o rato só olha para seu próprio bigode. Não se lembra das vésperas da Revolução Francesa, em que os “Notáveis” se recusaram a perder os privilégios de nascimento quando o Terceiro Estado tentou aprovar que todos devem pagar impostos. Foi um chilique total no clero e na nobreza, que continuaram vendo apenas seu próprio umbigo.

Não conseguindo mudar institucional e pacificamente a realidade francesa, o Terceiro Estado rompeu com os demais e, inflamando os mais pobres, os excluídos, partiu para a revolução.
E ninguém acreditava no poder daquelas massas, que, não tendo pão, também não podiam comer brioches, como sugeriu a rata coroada. Impossibilitado de esconder o rabo, o rato apareceu inteiro e, depois de novos chiliques, perdeu a cabeça.

MÉTODO PARA RACIOCINAR NOS TEXTOS DE HISTÓRIA

Estamos de volta às aulas e, para vestibulandos, a reta final para os grandes vestibulares. As provas de História têm sido elaboradas com textos ou imagens e, muitas vezes, com textos e imagens.
Para tentar auxiliar o aluno que tem dificuldade nesse tipo de prova, aqui vai uma metodologia de raciocínio. Quanto mais treinada e repetida, mais mecânica ela será, diminuindo até o tempo para a compreensão das questões e elaboração das respostas.

A. PARA DECIFRAR O CONTEXTO HISTÓRICO
1. Observar quando o texto foi escrito, ou seja, a datação do texto;
2. Observar a autoria do texto;
3. Observar o interesse do autor, qual seu grupo social, qual sua classe social;
4. Observar a natureza do documento, ou seja, se é oficial (uma lei, por exemplo), se é literário, jornalístico, panfletário;
5. Observar se o autor do texto é ou não contemporâneo dos acontecimentos.


B. O TEXTO E SUAS FUNÇÕES
Os textos não são neutros, sempre carregam uma intenção. Um texto pode ser apenas a expressão do pensamento de quem os escreveu. Mas pode representar as intenções de uma classe social, de um partido político ou de outro grupo.

AQUI RESIDE UM ASPECTO IMPORTANTE: O BOM LEITOR, VESTIBULANDO OU NÃO, DEVE ENTENDER AS INTENÇÕES DO TEXTO, MAS NÃO SE ENVOLVER PESSOALMENTE COM ELAS.

C. A IMPORTÂNCIA DO RECORTE DE TEMAS HISTÓRICOS


O recorte do tema é um recurso usual dos historiadores. Quando o assunto é amplo, como, por exemplo, a Revolução Francesa, a colonização da América, a Revolução Russa, o historiador faz um recorte, escrevendo sobre a ideologia ou sobre as relações sociais, ou sobre a política da época analisada. É evidente que, para aprofundar o recorte, o historiador tem em mente os aspectos gerais do assunto.
As provas de História também usam o recurso do recorte. As questões cobram uma parte do assunto, ou seja, um recorte.
Tomemos o feudalismo como exemplo de um assunto amplo. A questão pode ser,por exemplo, sobre as origens do sistema, ou seja, um recorte do assunto. E pode ser, ainda por exemplo, sobre a sociedade da época, outro recorte.

AQUI RESIDE MAIS UM ASPECTO IMPORTANTE: UMA BOA RESPOSTA NÃO PODE FUGIR DO RECORTE QUE A QUESTÃO FAZ DO OBJETO DE ESTUDO.

D. OS ACONTECIMENTOS RELACIONAM-SE ENTRE SI

Não há acontecimento isolado numa análise histórica. Não se pode perder a dimensão social, coletiva, do assunto analisado. Por exemplo, não há como entender a escravidão no Vale do Paraíba durante a economia cafeeira sem conhecer a escravidão como a força de trabalho instituída desde a montagem da colonização do Brasil.
Mesmo quando dois acontecimentos são aparentemente isolados e/ou distantes um do outro, pode haver articulação entre eles e, para bem entendê-los precisamos pensar neles em conjunto, ou através das relações que estabelecem entre si. Neste caso, é necessário fazer uma análise mais ampla para poder ir a fundo na questão investigada.

PARA UMA BOA RESPOSTA, É PRECISO TRAZER À MEMÓRIA OS CONTEXTOS RELACIONADOS E PENSAR QUAIS SÃO SUAS ARTICULAÇÕES.

sábado, 23 de julho de 2011

O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO

(Vinícius de Moraes)
E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.


Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.



in Novos Poemas (II)
in Poesia completa e prosa: "Nossa Senhora de Paris"

Construção
Chico Buarque
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

http://letrasdespidas.wordpress.com/2007/07/12/chico-buarque-construcao/

POESIA MATEMÁTICA (Millôr Fernandes)

Às folhas tantas do livro matemático,
um Quociente apaixonou-se um dia,
doidamente,
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do Ápice à Base,
uma Figura Ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida paralela à dela,
até que se encontraram no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele,
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética correspondea almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz,
numa sexta potenciação,
traçando ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclideana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar,
constituir um lar, mais que um lar, um perpendicular.
Convidaram para padrinhos

o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro,
sonhando com uma felicidade integral
e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes até aquele dia
em que tudo vira, afinal,

monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum,
frequentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo, uma unidade.
Era o triângulo, tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser moralidade
como, aliás,
em qualquer sociedade.


(Texto extraído do livro "Tempo e Contratempo", Edições O Cruzeiro - Rio de Janeiro, 1954, publicado com o pseudônimo de Vão Gogo)

RECADO AO SENHOR 903

Vizinho,
Quem fala aqui é o homem do 1003. Recebi outro dia, consternado, a visita do zelador, que mostrou a carta em que o senhor reclamava contra o barulho em meu apartamento. Recebi depois a sua própria visita pessoal – devia ser meia-noite – e sua veemente reclamação verbal. Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do prédio é explícito e, se não o fosse, o senhor teria ao seu lado a Lei e a polícia. Quem trabalha o dia inteiro tem direito ao repouso noturno, e é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no 1003. Ou melhor: é impossível ao 903 dormir quando o 1003 se agita; pois como não sei o seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos reduzidos a ser dois números, dois números empilhados entre dezenas de outros. Eu, 1003, me limito a Leste pelo 1005, a Oeste pelo 1001, ao Sul pelo Oceano Atlântico, ao Norte pelo 1004, ao alto pelo 1103 e embaixo pelo 903, que é o senhor.
Todos esses números são comportados e silenciosos; apenas eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da Lua.
Prometo sinceramente adotar, depois das vinte e duas horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo. Quem vier à minha casa (perdão; ao meu número) será convidado a se retirar às 21 e 45, e explicarei: o 903 precisa repousar das 22 às 7, pois às 8 e 15 deve deixar o 783 para tomar o 109 que o levará até o 527 de outra rua, onde ele trabalha na sala 305. Nossa vida, vizinho, está toda numerada, e reconheço que ela só pode ser tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites de seus algarismos.
Peço desculpas e prometo silêncio.
... Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse: “Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em sua casa. Aqui estou!”E o outro respondesse: “Entra, vizinho, e come do meu pão e bebe do meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a Lua é bela”.
E o homem trouxesse sua mulher, e os dois ficassem entre os amigos e amigas do vizinho entoando canções para agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores, e o dom da vida, e a amizade entre os humanos, e o amor e a paz.

Janeiro, 1953
(Texto de Rubem Braga, publicado em 1964).

domingo, 10 de julho de 2011

LIÇÃO DE FÉRIAS: CINEMA

Aos alunos vestibulandos em férias, uma pequena contribuição. Reorganizei a lista de filmes, acrescentando o assunto fundamental, para facilitar a busca. Antes da lista, há uma receita do que fazer para estudar com arte.
Procure nos MARCADORES: "Filmes Indicados"
Boas férias...com arte.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

REVOLUÇÃO RUSSA








O CAMPONÊS RUSSO

A mais importante e tradicional estrutura agrária na Rússia era o mir, a comunidade aldeã. A propriedade do solo era coletiva e a apropriação dos frutos da terra também. Assim, não havendo diferenças econômicas, não havia diferenças sociais.
A partir do século XV, a servidão avançava na Rússia, enquanto o feudalismo da Europa Ocidental declinava. O Estado imperial centralizava o poder nas mãos dos czares. O mir perdia força como realidade camponesa.
O avanço posterior do capitalismo exigia o fim da servidão e das comunidades aldeãs, consideradas um estorvo às novas relações de produção. A terra tornou-se um bem privado, comercializado, produtor de bens para o mercado. Surgiram os kulaks, burgueses rurais proprietários das terras de maior extensão. Enquanto os membros do mir se enfraqueciam e se endividavam com o Estado e com os burgueses, os kulaks se fortaleciam e enriqueciam. O capitalismo no campo abriu um fosso entre a massa camponesa empobrecida e sem terra e a burguesia rural.

O OPERÁRIO RUSSO

Massas camponesas sem terra migraram para centros urbanos, oferecendo sua força de trabalho a preços baixíssimos, em função do enorme exército de reserva. A Indústria na Rússia, iniciada nos fins do século XIX, era financiada e dominada pelo capital externo. As empresas concentravam-se em pólos industriais, como o de Moscou e Petrogrado (São Petersburgo).
O caráter concentracionista das indústrias em poucos pólos provocava a concentração do proletariado, que passava a ter consciência de classe. Por outro lado, como as grandes indústrias eram controladas pelo capital externo, as pequenas, de capital russo, não resistiam à concorrência e faliam. O capital internacional sufocou o capital nacional, gerando descontentamento na burguesia russa.

O ESTADO RUSSO

O absolutismo monárquico foi derrubado na Inglaterra no século XVII, com a Revolução Gloriosa. Na França, caiu em 1789, e, em toda a Europa, no período das guerras napoleônicas. A Restauração, resguardada pela Europa de Metternich do Congresso de Viena, não resistiu às ondas revolucionárias de 1820, 1830 e 1848.
Na Rússia, em pleno século XX, o absolutismo, a autocracia czarista, continuava, apoiada nas forças de conservação: aristocracia, alto clero e alto comando militar. “O Imperador de todas as Rússias é um monarca autocrata e ilimitado. O próprio Deus determina que o seu poder supremo seja obedecido, tanto por consciência como por temor”, dizia o Artigo I das Leis Fundamentais do Império, publicadas em 1892.

AS IDEOLOGIAS RUSSAS

Várias tendências ideológicas existiam na Rússia. Ora se aproximavam, ora se chocavam entre si. Os ocidentalistas defendiam as idéias francesas e inglesas, vitoriosas que foram nos seus países. Os eslavófilos, ao contrário, defendiam a tradição eslava do povo russo, o pan-eslavismo centrado na Rússia. Já o Movimento dos Narodniques pregava o socialismo agrário, fundado nas comunidades aldeãs do passado, um resgate do mir.
O Partido Social-Democrata Russo foi criado em 1898 e tinha ideologia marxista. Em 1903, durante uma convenção, os sociais-democratas dividiram-se em dois. Para os mencheviques (minoria dos deputados da convenção), a Rússia deveria fazer uma revolução liberal, nos moldes da inglesa e da francesa, derrubar o absolutismo, fazer crescer o capitalismo, para depois realizar a revolução proletária, seguindo ortodoxalmente a receita de Marx, que afirmava que a revolução proletária seria iniciada nos Estados de capitalismo avançado. Para os bolcheviques (maioria dos deputados da convenção), a revolução proletária deveria ser imediata, ao lado dos camponeses: o martelo e a foice organizados por um partido centralizado, disciplinado e combativo, formador de revolucionários profissionais, uma vanguarda revolucionária que comandaria as ações da revolução das massas.

1905, “O ENSAIO GERAL”

Em 1905, o governo czarista colocou a Rússia numa desgastante guerra contra o Japão, disputando o domínio sobre a Coréia e áreas na Manchúria, na China. Durante o conflito, um movimento pacifista foi esmagado pelas tropas do czar: foi o “Domingo Sangrento”.
A derrota na guerra foi humilhante e o czar teve de assinar a paz nas condições impostas pelo Japão. A isso se somou uma grande depressão econômica. Os trabalhadores paralisaram a economia, com greves e agitações. No mar Negro, marinheiros do encouraçado Potemkin se rebelaram. A aura de sagrado e intocável do czar foi abalada. Nicolau II, pressionado, criou a Duma, uma assembléia legislativa que, depois, acabou caindo sob seu domínio.
Por outro lado, uma nova forma de organização popular nascia e crescia, os sovietes, conselhos de representantes do povo: sovietes de camponeses, sovietes de operários, sovietes de soldados, sovietes de marinheiros...

A RÚSSIA NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Quando a Rússia foi derrotada pelo Japão, em 1905, seus esforços se voltaram para os Bálcãs, apoiando o pan-eslavismo da Sérvia contra a Áustria, que dominava os Estados balcânicos. A Áustria era aliada da Alemanha, cujos interesses expansionistas em direção a Bagdá (Estrada de Ferro Berlin-Bagdá) passavam pelos estreitos de Bósforo e Dardanelos, nos Bálcãs. O expansionismo russo entrou em choque direto contra o expansionismo alemão na região.
A Rússia, a Inglaterra e a França criaram a Tríplice Entente, em oposição à Tríplice Aliança, formada pela Alemanha, pela Itália e pelo Império Austro-Húngaro.
Após o Atentado de Sarajevo, em que morreu o herdeiro austríaco, a Áustria atacou a Sérvia. A Rússia, em apoio à Sérvia, atacou a Áustria, que era apoiada pela Alemanha. Iniciava-se a Guerra Mundial.
Ainda no primeiro ano da guerra, a Alemanha empreendeu uma enorme ofensiva contra a Rússia, planejando vencer na Frente Oriental para, depois, atacar a França, na Frente Ocidental. Entre o final de 1914 e o final de 1916, a Rússia, despreparada para uma guerra moderna, perdeu mais de 4 milhões de soldados.
Numa jogada de cena político-militar, o czar Nicolau II passou a comandar o exército, deixando as decisões do governo em mãos de burocratas e da czarina, frágil e dominada psicologicamente pelo místico e charlatão Rasputin. Ao desastre econômico, somava-se o desastre político; à fome e ao desespero do povo, somava-se o enfraquecimento político-institucional do Estado Imperial anacrônico, ultrapassado pela História.

A REVOLUÇÃO MENCHEVIQUE

No início de março de 1917 (23 de fevereiro do calendário Juliano), greves em Petrogrado contra a guerra, a fome, os elevados preços dos alimentos, transformaram-se na Revolução de Fevereiro. Caiu Nicolau II, da dinastia Romanov, que governava a Rússia há mais de três séculos, “sob a proteção de Deus”.
O Governo Provisório de Lvov e Kerensky manteve a Rússia na Primeira Guerra Mundial, frustrando a população para agradar as potências capitalistas da Entente. Cerca de 2 milhões de soldados desertaram, incentivados pelos sovietes que agiam no front. Os sovietes formaram um governo paralelo: “Kerensky governa a Rússia, os sovietes governam os russos!”
O Pravda publicou as Teses de Abril, de Lênin. Paz, Pão e Terra era o grito revolucionário bolchevique, ao qual se somava o de “Todo Poder aos Sovietes”. Defendia a nacionalização dos bancos e das demais empresas estrangeiras, a socialização da terra e a saída da Rússia da guerra.

A REVOLUÇÃO BOLCHEVIQUE

Em 1903, os bolcheviques eram a maioria da convenção, embora não fosse a maioria dos membros dos sovietes, mas os efeitos da Primeira Guerra e do desastre do governo liberal menchevique fizeram crescer a presença bolchevique que, agora, era maioria de fato: 600 mil membros altamente disciplinados e combativos sustentavam o Partido e a revolução soviética.
Entre 24 e 25 de outubro de 1917 (6 e 7 de novembro, no calendário gregoriano), os revolucionários derrubaram o governo Provisório e os sovietes chegaram ao poder. Dois meses e quinze dias depois, Lênin, os sovietes e o povo russo comemoraram o fato deque sua revolução vivera mais tempo do que a Comuna de Paris, primeira experiência prática de comunismo moderno.
No primeiro semestre de 1918, Lênin assinou com a Alemanha o Tratado de Brest-Litovsky, pelo qual a Rússia saiu da Primeira Guerra Mundial. “A Rússia renunciava à Polônia, Ucrânia, Finlândia, Estônia, Lituânia e Letônia, perdia três quartos de suas minas de ferro e carvão e pagava forte indenização.” (AQUINO, Rubin e outros, História das Sociedades). Aos críticos do tratado, inclusive bolcheviques, Lênin respondia ser preciso salvar a revolução a qualquer preço. O povo precisava das duas mãos para estrangular a burguesia russa e seus aliados. Os soldados e marinheiros russos saíram das trincheiras da guerra contra a Alemanha e voltaram para casa, levando suas armas e enorme experiência em usá-las. Antes da guerra, eram apenas camponeses ou operários, durante a guerra eram soldados e agora eram camponeses-soldados e operários-soldados. E eram milhões de homens.

A GUERRA CIVIL (1918 a 1921)

A contrarrevolução foi iniciada por antigos oficiais czaristas e ganhou a simpatia de clérigos, mencheviques, liberais e da nobreza. Durante a Primeira Guerra Mundial, os sovietes de soldados do front politizavam não só os soldados russos, mas de outros países, com panfletos revolucionários contra aqueles que enviaram esses homens à guerra, a burguesia internacional.
Governos europeus e o norte-americano viam suas tropas alimentarem-se de idéias socialistas, uma ameaça para seus próprios regimes. Por isso, as potências capitalistas, aliadas ou inimigas entre si, passaram a apoiar os Russos Brancos contra os Russos Vermelhos. Para elas, era fundamental esmagar a revolução socialista em seu berço.
O governo soviético reforçou o Exército Vermeho, comandado por Trotsky, e decretou o Comunismo de Guerra, medidas radicais que aceleraram a comunização dos meios de produção, como as terras e as fábricas. O pensador Maurice Crouzet diz:
“...o seu objetivo é uma estrita regulamentação do consumo e da produção, num país cercado, mas, ao mesmo tempo, provoca transformações na estrutura econômica (...) Há, portanto, expropriação da grande indústria e da maior parte das pequenas empresas; o simples controle operário previsto foi substituído pela gestão operária.”
Os Russos Vermelhos venceram a guerra civil, mas o caos econômico estava instalado: baixa produção de bens, sabotagens dos antigos proprietários, falta de experiência prática na gestão da nova ordem econômica revolucionária. Rubin Aquino, já citado, nos ensina: “Os camponeses sentiam-se ameaçados pelas requisições forçadas. O poder bolchevista enfrentava sua primeira grande crise com as próprias forças que o apoiavam.”

A NEP (1921 a 1927)

Para recuperar a economia, Lênin e os sovietes criaram a NEP – Nova Política Econômica, um misto de socialismo e capitalismo. Na concepção soviética, era preciso dar um passo para trás, recuar ao capitalismo, para dar dois passos à frente, em direção ao socialismo. O comércio interno foi liberado, pequenas empresas foram devolvidas aos seus antigos proprietários privados. Os kulaks receberam de volta suas terras. Ao mesmo tempo, o Estado controlava os transportes, os bancos, a grande indústria, o comércio externo. A Rússia começou sua recuperação econômica, com a produção industrial e agrícola superando a dos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
Durante a vigência da NEP, em 1922, uma nova constituição entrou em vigor, dando origem à URSS, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. O poder supremo era o Congresso dos Sovietes da União, restando aos Estados Federados alguma autonomia. O Partido Bolchevique passou a se chamar Partido Comunista da União Soviética – PCUS, verdadeira fonte do poder.

STÁLIN X TROTSKY

Qual seria o destino da Revolução? Até a década de 1920, as tentativas de internacionalizá-la fracassaram. Trotsky e seus seguidores insistiam na tese da revolução permanente e internacional para consagrar a nova ordem socialista. Stálin e seus seguidores, observando o isolamento internacional da Rússia, insistiam que esse isolamento não impediria a vitória revolucionária na própria Rússia, possuidora de recursos materiais e humanos suficientes para o “socialismo num só país”, ou seja, na URSS.
Com a morte de Lênin, em 1924, a disputa se acirrou entre as duas vertentes e a de Stálin venceu. Começava a Era Stalinista, que duraria até 1953.

A ERA STALINISTA

A GOSPLAN (Comissão do Conselho do Trabalho e da Defesa) havia elaborado um plano econômico para ser implantado após a NEP e tinha um prazo de cinco anos para atingir seus objetivos. Era o Primeiro Plano Quinquenal, que entrou em vigor em 1928. Suprimiram-se as propriedades individuais e desenvolveu-se a indústria pesada, de bens de equipamento, em detrimento dos bens de consumo. No campo, formaram-se os kolkoses, cooperativas de produção entre camponeses, e os sovkoses, fazendas estatais com assalariamento dos camponeses.
Estava iniciado o caminho para a Rússia tornar-se potência mundial, posição consolidada após o Segundo Plano Quinquenal. A Crise de 1929 e a Grande Depressão que dela nasceu, atingiu todo o mundo capitalista, mas não arranhou e economia soviética. Para saírem da crise, os governos capitalistas abandonaram o liberalismo clássico, ortodoxo, e adotaram a intervenção do Estado na economia, com empresas estatais, planejamento econômico, protecionismo, e o Estado de Bem-Estar Social. Ou substituíram a democracia liberal pelas ditaduras totalitárias anticomunistas, como o fascismo e o nazismo.
Do ponto de vista político, a cúpula do poder stalinista se fechava, tornando-se totalitário. Expurgos, prisões de simples desafetos, campos de concentração e execuções passaram a ser as armas contra opositores ao modelo de Estado hipertrofiado. Foi o caso de muitos líderes revolucionários do início da revolução, como Trotsky, morto assassinado a mando de Stálin em 1940, no México.